Parto humanizado: por menos intervenções e mais respeito às escolhas da mulher

Por Mariana Colombo Araújo, Jessica Araújo Telhada e Matri Gaia (matrigaia.com.br)



Inicialmente, trazemos questões para refletirmos: é possível classificar um parto antes de ele
acontecer? Será possível saber qual o “tipo” de cada parto antes mesmo do seu desfecho?
Para essas questões a resposta deveria seria NÃO. O ideal é que só soubéssemos mesmo na
hora, no momento de cada parturiente.

Há cerca de 80 anos atrás, como consequência do nosso sistema obstétrico, nasceu a
classificação dos partos por “tipos”. Assim, foram nomeados o “Parto Normal” e a “Cesariana”.

A maioria dos mesmos passou a ocorrer dentro do hospital e a ser feito por médicos, em
macas horizontais, com as mulheres em posição ginecológica. O ambiente não proporcionava
alternativas, ou a mulher se adaptava a parir nas condições padronizadas ou ia para uma
cirurgia cesariana.

Em geral, essas condições eram as salas pré-parto sem privacidade, com proibição de
acompanhantes, impossibilidade de movimentação, soro com ocitocina sintética (hormônio
naturalmente produzido responsável pelas contrações uterinas), período expulsivo com a
mulher deitada de costas e pernas amarradas (o que de quebra diminui a circulação sanguínea
para a mãe e o feto e reduz em 40% o espaço para a passagem do bebê), equipe pressionando
barriga da mulher (manobra de kristeller), corte rotineiro no períneo (a famosa episiotomia),
etc... Intervenções e mais intervenções para acelerar o parto. Infelizmente, tais condições
ainda são mais recorrentes nos hospitais brasileiros do que o esperado.

O natural seria que cada mulher pudesse escolher durante o trabalho de parto seus
acompanhantes e a posição que para ela, naquele momento, fosse a mais fisiológica e
favorecedora para o nascimento. E só saber se precisará de uma cesariana em caso de real
necessidade, o que segundo a OMS (Organização mundial da Saúde) deve corresponder a
apenas 15% dos partos, incluindo aí as gestações de maior risco.

Na década de 70, guiados por movimentos revolucionários, alguns médicos e mulheres
passaram a questionar o excesso de intervenções, propondo o resgate do nascimento como
um evento fisiológico e familiar. A partir daí começam a surgir formas alternativas de se pensar
o parto.

O Parto Humanizado é um termo atual que tem sido usado indiscriminadamente. Para alguns
hospitais significa a presença de uma acompanhante, música relaxante na sala de parto e a
“permissão” de ficar alguns minutos com o bebê antes de ser levado para o berçário. Para o

Ministério da Saúde, significa o direito que toda gestante tem de passar por pelo menos 6
consultas de pré-natal, ter sua vaga garantida em um hospital na hora do parto e ter o direito a
um acompanhante de escolha.

Segundo a OMS, são recomendadas ações que promovam o incentivo ao parto vaginal, ao
aleitamento materno, ao alojamento com o bebê, presença de acompanhante, estímulo a
técnicas de alívio da dor como banhos, massagens, caminhadas livres... E a redução de
intervenções hospitalares como a episiotomia, aplicação de ocitocina sintética, lavagem
intestinal (enema) e tricotomia (raspagem de pelos).

Para a Rehuna (Rede Brasileira pela Humanização do Nascimento), a Humanização do parto é
devolver o protagonismo à mulher e promover uma atenção centrada nas escolhas e
necessidades individuais de cada uma. Se a escolha será dar à luz de cócoras ou na água, o
tempo que vai querer ficar com o bebê no colo após seu nascimento, quem vai estar em sua
companhia, se vai querer comer ou beber algo, o local do trabalho de parto, nascimento e pós
parto imediato; todas essas decisões deverão ser tomadas por ela em primeiro lugar,
protagonista de seu próprio parto e dona de seu corpo, em comum acordo com a equipe.

Melania Amorim, médica obstetra, ainda cita: “parto humanizado não é uma técnica ou um
método, é antes uma concepção filosófica. Além do resgate do protagonismo feminino no
parto, o que se propõe é reduzir as taxas de cesariana que são assombrosas em nosso país e
evitar a excessiva medicalização do parto, ou seja, não intervir num processo que é fisiológico,
exceto se houver evidências sólidas confirmando a necessidade de intervenção”.

Apenas nos casos onde há riscos para mãe e/ou feto, durante a gestação ou no trabalho de
parto, é recomendada uma intervenção cirúrgica. A Cesariana é uma cirurgia de grande porte
que, em algumas ocasiões - tais como placenta prévia (placenta sobre o colo de útero),
prolapso de cordão (o cordão aparece antes da cabeça do bebê), eclampsia, bebê transverso
etc. -, vem para salvar a vida da mãe e do bebê. Este procedimento, entretanto, não é isento,
pois está associado às maiores taxas de morbi-mortalidade materna e infantil. Por isso, em
gestações de baixo risco a recomendação é aguardar que o início de trabalho de parto
aconteça espontaneamente, sem marcar o dia do nascimento através da cirurgia.


No Brasil, infelizmente, a cesárea vem sendo a forma de nascer mais frequente nos hospitais
privados, chegando a índices de mais de 90% em algumas cidades. Segundo ANS (Agência

Nacional de Saúde Suplementar), o país é campeão mundial de cesarianas no setor
suplementar (convênios de saúde) e a alta incidência de bebês prematuros parece estar
relacionada, em grande parte, às cesarianas e às induções do trabalho de parto realizadas
antes da completa maturidade fetal.

Atualmente, a visão humanizada do parto ganha força com a perspectiva da Medicina Baseada
em Evidências, que questiona o Modelo Tecnocrático e respalda cientificamente benefícios de
não se intervir rotineiramente no parto, promovendo o bem-estar do binômio mãe-bebê. O
trabalho de parto com amparo e apoio à mulher estimula a liberação de hormônios como a
ocitocina e endorfinas que auxiliarão na formação do vínculo mãe e bebê, no processo de
respiração do mesmo ao nascer, na redução do índice de depressão pós-parto...

Adicionalmente, a ida do recém-nascido direto para os braços da mãe, com o contato “pele a
pele”, garante a amamentação na primeira hora, assim como o clampeamento tardio do
cordão umbilical fornece uma quantidade extra de oxigênio e ferro evitando a anemia
neonatal. Parâmetros subjetivos como maior satisfação das parturientes e familiares também
são contabilizados como benefícios imediatos do parto humanizado.

Humanizar é acreditar na fisiologia da gestação e do processo do parto. Humanizar é respeitar
os aspectos individuais e emocionais da mulher e bebê. Humanizar é devolver o protagonismo
do parto a ela. Garantir-lhe o direito de conhecimento e o poder de escolha.

Mariana Colombo Araújo – Doula e Fisioterapeuta

Jessica Araújo Telhada – Doula e Psicoterapeuta Corporal

Equipe Matri Gaia