Como falar sobre a morte com as crianças?



É fato que ela existe e, em algum momento, precisará ser encarada. Mas, a verdade é que “morte” é um assunto difícil até mesmo para os adultos. Então, imagina para as crianças!

“O vovô foi para o céu”; “o cachorro virou uma estrelinha”... Será que essas explicações ajudam a criança a lidar com a morte? Ou será que ela precisa ouvir “a verdade”? Mas, como falar sobre a morte de pessoas próximas, animais ou até mesmo de pessoas desconhecidas, como vítimas de violência (casos divulgados pela mídia)?

Alessandra Netti, psicóloga e neuropsicóloga, comenta que falar da morte é mesmo um dos temas mais difíceis de se lidar com a criança. “Principalmente pois, normalmente, estaremos lidando com a perda de alguém muito especial também”, diz.

Alessandra destaca que a morte é um processo de transformação e cada religião abordará de uma maneira. Mas, independentemente de qual é a religião da família, é importante se atentar a alguns aspectos, de acordo com a psicóloga: 

– A criança encara a morte de uma maneira diferente da nossa enquanto adulto.

– Todo processo de luto dura por volta de 18 meses.

– Cada um de nós lidará com a perda de acordo com o nível do vínculo que existia com aquela pessoa ou animalzinho que perdemos. Falo dos animais também pois eles são muito importantes nesse processo do enlutamento.

– Deixe as crianças falarem sobre a pessoa que se foi tanto quanto for preciso. Muitos adultos não querem mais tocar no assunto, pois traz muita dor, porém, o processo do luto da criança muitas vezes é inverso ao do adulto, ela gosta e necessita falar a respeito.

– Se a dor for muito grande, você pode sugerir para a criança fazer um desenho quando estiver com saudade da pessoa que se foi.

– Há crianças também que, “estranhamente”, não tocam mais no assunto e muito pais ficam preocupados com esse comportamento. Isso acontece porque a criança sabe da dor dos pais e não quer mexer na ferida. Saber lidar com naturalidade, respeitando a própria dor e a dor das crianças favorece para que todos possam vivenciar esse momento com muito amor, acolhimento e ternura.




É muito importante também saber que a criança, independentemente da idade, costuma levar tudo ao pé da letra: por exemplo, se você disser que a pessoa “dormiu para sempre”, ela pode ficar com medo de dormir. Se você disser que a pessoa “foi fazer uma viagem”, ela poderá se confundir e acreditar que, toda vez que alguém for viajar, não voltará. Então, esse tipo de frase deve ser evitado.

Uma atitude válida é ir educando a criança por meio de exemplos práticos do ciclo da natureza: por exemplo, semeie uma plantinha e vá mostrando como ela nasce, cresce, adoece e morre. Ou seja, o “feijãozinho plantado no algodão” pode ser um aliado. Livros infantis e filmes que tratam do assunto (claro, de forma leve) também ajudam.

As crianças não devem também ser incentivadas a personificar a morte, por exemplo, imagina que ela é “um monstro” do qual se pode escapar ou enganar.

Outra dúvida comum diz respeito a levar ou não a criança ao enterro. “Acredito que não precisa levar. Depois, o que se pode fazer é levar a criança no cemitério”, diz Alessandra.

A verdade é que não existe uma regra, pois falar sobre a morte sempre será difícil. “Acho que o importante é ter acolhimento e amorosidade ao falar com as crianças. Os adultos precisam identificar a gravidade do momento. Às vezes não falar nada e abraçar carinhosamente a criança vale mais do que mil palavras”, finaliza Alessandra.