Como evitar uma dependência exagerada por parte dos nossos filhos



É uma realidade: hoje, mais da metade das mulheres trabalham fora, pelos mais variados motivos... E, com isso, nos casos das muitas mulheres com bebês e crianças pequenas, uma hora ou outra elas terão que encarar um momento delicado: decidir com quem deixarão os filhos enquanto trabalham.

Algumas preferem deixar com os avós, outras com babás, e há quem opte pela escola infantil. E, em qualquer uma dessas opções, essa fase proporciona um acontecimento importante na vida dos pais e das crianças... É aí que se inicia o “desgrude” da criança em relação à sua mãe, o que nem sempre é fácil. 

“Para o filho, a mãe representa nutrição, proteção, conforto, amor e carinho. Portanto, neste período de ‘afastamento’, é normal a criança sentir falta da mãe, ter medo e chorar”, comenta Carlo Crivellaro, pediatra com título de Especialista em Pediatria pela Sociedade Brasileira de Pediatria, membro da Sociedade Brasileira de Pediatria, e membro da Highway to Health International Healthcare Community.

Mas é também nesta fase que é importante se atentar a alguns pontos: de acordo com Crivellaro, crianças criadas com excesso de zelo podem ter ainda mais dificuldade de se adaptarem com a ausência da mãe. “Vale dizer que excesso de zelo é quando a mãe dá tudo o que o filho quer, tem dificuldade de dizer ‘não’ e de impor limites à criança”, diz.

“O carinho e a atenção dos pais são fundamentais, mas a falta de limites torna a criança mimada, insegura e irresponsável. Os filhos precisam entender, desde a infância, até aonde podem ir, e que as cobranças fazem parte da vida”, acrescenta o pediatra.

Vale destacar ainda que é na fase pré-escolar (2 a 6 anos) que a criança começa a explorar
mais o mundo, e sente curiosidade em descobrir coisas novas, o que faz com que ela possa assumir riscos. “Esses riscos devem ser supervisionados, mas permitidos, desde que não se trate de situação de risco real. Isso é importante para que a criança tenha iniciativa e independência”, explica Crivellaro.

O pediatra exemplifica: se cada vez que a criança tentar fazer algo (por mais simples que seja), ouvir “deixa que eu faço”, “você não vai conseguir fazer sozinho”, “você é pequeno demais”... A capacidade dela de evoluir e de ter interesse por novas descobertas será totalmente inibida.

E o que isso significa na prática? Que, com o tempo, isso pode levar a criança a ser mais tímida, mais medrosa e achar que as coisas só darão certo se a mãe estiver por perto.

Por isso é essencial nós, pais, refletirmos sempre: será que estamos exagerando na proteção? Será que o excesso de proteção não está prejudicando o amadurecimento e a independência dos nossos filhos? 

Se, por um motivo ou outro, respondermos que sim, devemos nos atentar: esta forma de educar trará consequências frustrantes na vida adulta, tanto na questão pessoal como profissional. E, obviamente, os primeiros passos para cortar essa dependência exacerbada precisam ser dados por nós, adultos.


Como evitar a dependência exagerada?


Medidas simples fazem a diferença. Crivellaro dá algumas orientações práticas:

- Você, mãe, pode ir preparando a criança desde cedo, mostrando que outras pessoas também
são capazes de cuidar dela. Deixe-a mais tempo com os avós ou com os padrinhos, e aproveite para passear um pouco, se cuidar, sair com os amigos e até ter um momento a sós com o marido. Com o tempo, a criança vai perceber que a mãe se ausenta, mas volta, e isso será benéfico para todos. 

-Ao sair, sempre se despeça e explique que vai voltar. Se você for embora sem falar com seu filho, ele não entenderá, e isso pode gerar insegurança e perda de confiança.

- Mesmo que seu filho seja um bebê, converse com ele. Diga que precisa ir trabalhar ou fazer alguma coisa na rua, mas que irá retornar. 

- Quando for deixar a criança na escola ou com outra pessoa, não demonstre tristeza ou angústia. Pois, lembre-se, os pequenos absorvem tudo... e qualquer sentimento que você tiver, irá transmitir ao seu filho. Portanto, seja firme. Diga que o ama, que ele ficará bem e que mais tarde irá buscá-lo.

- Incentive seu filho a valorizar o seu próprio espaço. Deixe claro que ele tem a SUA cama, o SEU quarto e os SEUS objetos. Claro que concessões podem ser feitas, como dormir uma noite ou outra com os pais... Mas é fundamental que a criança já comece a ter noções de discernimento, e entenda que certas coisas não podem ser feitas sempre que ela tiver vontade.

- Incentive sempre que possível a realização de tarefas que a criança já possa fazer sozinha, como escovar os dentes, se vestir e tomar banho. Peça ajuda em funções que sejam apropriadas à idade dela, seja arrumando a mesa, guardando os brinquedos, regando as plantas, dando comida ao cachorro etc. Isso ajudará no seu desenvolvimento. 

- Quando perceber que a criança está com medo de realizar alguma tarefa, primeiro entenda a
razão deste medo e a encoraje a enfrentar a situação. 

Por fim, vale lembrar: nenhum excesso é saudável! Sermos presentes e cuidarmos com todo amor dos nossos filhos é essencial, mas excesso de zelo tende a trazer consequências ruins. 


Estimular a independência de seu filho é um grande passo para ajudá-lo a se tornar um adulto seguro, responsável e capaz de resolver seus próprios problemas com maturidade e clareza.