Seu filho fala errado ou ellado?, por Marina Almeida de Sá

Quando nascem nossos bebês, não vemos a hora de escutar suas vozes e os ouvirmos dizer “MAMÃE”. Mas... e quando essa expectativa se adia? Ou quando o que ouvimos não é entendido? Por mais que pareça bonitinho, em algum momento, isso se torna preocupante. 

A comunicação é fundamental para nossa vida em sociedade, é através dela que podemos expressar nossos desejos e opiniões, e é pela linguagem que nos comunicamos. A linguagem pode ser não-verbal, apresentada por meio de símbolos, desenhos, gestos, expressões faciais, e pode ser também verbal nas quais nossas opiniões são transmitidas pela palavra escrita ou falada.

Para que tenhamos uma comunicação efetiva, existem diversas estruturas envolvidas, nas quais é fundamental um funcionamento adequado. Destas estruturas queremos destacar os órgãos da audição, os lábios, a língua, os dentes, o palato (céu da boca) e as bochechas. É no desenvolvimento intrauterino que estas estruturas se desenvolvem, e já a partir da 20ª semana gestacional, por volta de 4 meses e meio, os órgãos da audição já estão formados e possibilitam a partir daí o contato do bebê com os sons que lhe serão familiares no seu desenvolvimento. Pensando nisso, se a criança já tem esse contato dentro da barriga, por que é que muitas vezes o desenvolvimento fica afetado? 

Isso ocorre, pois não só a audição faz parte desse processo, mas também aquilo que é ouvido. Essa afirmação é facilmente entendida, quando nos deparamos com uma criança que fala russo, por exemplo. Embora as línguas sejam organizadas de forma altamente abstrata e extraordinariamente complexas, a capacidade de aprendizado de fala presente nas crianças, as possibilitam, nos seus primeiros anos de vida, estar dominando o sistema lingüístico idêntico ao das pessoas que a cercam. 

Partindo deste fato, podemos entender que a audição emprega um papel fundamental no desenvolvimento da linguagem do bebê, pois é baseado naquilo que escuta que se estruturará a fala desta criança. 

Desta forma, quando temos uma audição dentro dos padrões de normalidade, dá-se continuidade a responsabilidade daqueles que estão diretamente envolvidos nos cuidados com o bebê. O que falamos, como falamos e os estímulos aos quais expomos nossos filhos serão por eles assimilados e reproduzidos, por isso quando reforçamos uma fala infantilizada, estamos atrasando o desenvolvimento de fala desta criança. O que pode parecer “bonitinho” hoje pode ser constrangedor amanhã. Por isso, quando seu filho pedir algo como “ nhenhê qué tetê” somente repita a frase de maneira correta, sem corrigi-lo dizendo “Ah! O neném quer o seu leitinho?” Dessa forma você irá mostrar-lhe o padrão correto de fala e não irá supervalorizar o erro. 

Agora que entendemos que é necessária uma audição em boas condições e exemplos de fala adequados, podemos abordar as questões relacionadas às estruturas envolvidas na articulação dos sons da fala. São estas os lábios, a língua, os dentes, o palato (céu da boca), as bochechas e o nariz. Somada a estas estruturas estão os pulmões, a traquéia e a laringe formando assim um tubo que vai dos pulmões aos lábios e que é responsável pela produção dos sons da fala. 

Para que ocorra um desenvolvimento adequado, é necessário que tenhamos estruturas íntegras e em bom funcionamento. Isto é possível quando funções como mastigação, sucção e respiração acontecem de forma correta. 

Abordando questões como mastigação e sucção, é necessário que tratemos primeiramente sobre a importância do aleitamento materno, que irá promover através da sucção o fortalecimento dos músculos da face como língua, lábios e bochechas. E não para por aí, o fortalecimento é um processo contínuo, que se desenrolará através dos hábitos alimentares saudáveis e adequados que deverão ser adotados. 

O fortalecimento das estruturas da face é fundamental para um adequado posicionamento das mesmas na articulação das palavras. As alterações de fala caracterizada por trocas articulatórias, aparecem quando lábios, língua e dentes não se posicionam nos lugares devidos, alterando assim os sons que são emitidos. Para exemplificar, podemos dizer que se uma criança deseja falar “macaco” e pronuncia “tacaco”, ocorreu que na produção do fonema “m”, onde os lábios deveriam se encostar, houve uma troca pelo fonema “t” onde a língua toca os dentes, produzindo assim uma troca articulatória. O tipo de troca que acabo de citar é apenas uma das que podem ser apresentados por uma criança em seu período de desenvolvimento de fala, e tais trocas podem ser evitadas. 

Quando pensamos em saúde de uma forma ampla, todos temos que admitir que a prevenção é o melhor remédio. Partindo deste pressuposto precisamos esclarecer que as trocas fonoarticulatórias também podem ser evitadas. E uma das formas de se evitar encontra-se ao alcance de nossas mãos quando proporcionamos a nossos filhos um ambiente calmo e tranquilo, onde a atenção ao que se come e como se come está presente. Devemos observar ainda a quantidade de líquidos ingeridos durante a refeição sem nos esquecermos da retirada de mamadeiras e chupetas no momento adequado. 

Todas essas medidas auxiliam no bom desenvolvimento da musculatura facial, o que proporciona os requisitos necessários para a boa articulação dos sons da fala. 

É preciso deixar claro ainda que estamos tratando de situações onde o desenvolvimento acontece sem nenhum tipo de intercorrência. Neste sentido é preciso frisar a necessidade de que no aparecimento de quaisquer dúvidas quanto ao desenvolvimento de fala de seu filho, procure um fonoaudiólogo especializado. 

Marina Almeida de Sá Fonoaudióloga / CRFa 2-16.210
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Referências Bibliográficas: 

BASSETTO, M. C. A.; Triagem Auditiva em Neonatos. In: LOPES FILHO, O.;et all. Tratado de Fonoaudiologia. 2ª ed. Ribeirão Preto, SP: Tecmedd, 2005. cap 11. p. 223 - 234. 

RUSSO, I. C. P.; SANTOS, T. M. M.; A audição e o desenvolvimento da linguagem. In: ___;Audiologia Infantil. 4ª ed. São Paulo: Cortez,1994. cap.1. p.15-28.