Montando o quebra-cabeça

Nayere Ruas*


Um dia resolvi montar um quebra-cabeça de 150 peças com o meu filho. Espalhamos as peças e fomos encontrando as congruências, os cantos. Algumas partes foram montadas fora do todo, mas ao final encontraram seu espaço dentro da figura completa. Outras peças, de tão indistintas, simplesmente não se encaixavam em nada, e só depois da imagem praticamente completa foi possível descobrir o lugar correto para elas. Conseguimos montar tudo, afinal. 

Meu marido realizou a mesma tarefa. Antes de começar, pacientemente contou todas as peças e verificou que faltavam 3. Desistiu de montar. Guardou tudo de novo e eu resolvi investigar. Encontrei as 3 peças caídas no chão, escondidas debaixo de um brinquedo. Isso me deixou intrigada: eu não tinha certeza que todas as peças estavam na caixa, mas, mesmo assim, me dediquei a montar a imagem. Passei o dia pensando nisso. 

A decisão de ter um filho pode ter 150, 200 ou 400 peças para montar. Eu engravidei sem antes contar as peças, aliás, sem saber que imagem formaria. Sem ter a referência do quadro completo para planejar onde cada peça se encaixaria. 

Daí eu tive a segunda filha, e um monte de peças foram jogadas por cima daquelas que eu ainda não havia terminado de montar. Seria uma imagem só ou duas? As peças combinariam entre si? Eu tive que descobrir à base de tentativa/erro. 

Quando você volta a trabalhar, vem um certo medo de que alguma peça se perca. Ou de que alguém monte uma peça de forma errada e você não consiga perceber o engano. Ou pior: que se forme uma imagem que você não gosta e de maneira definitiva. Tem trabalhos que parecem ajudar a montar. Outros, são como um ventilador sobre as peças, embaralhando tudo. 

Para mim o pulo do gato foi quando eu percebi que eu não precisava ter a referência da figura a ser montada. Porque, quase como mágica, o desenho das peças se modificam de acordo com o plano que eu tinha para mim mesma. Consequentemente, você passa a confiar nas pessoas certas e que te ajudam a montar da melhor forma possível. Com o autoconhecimento, eu vi que algumas partes eram inúteis para a montagem e foram descartadas sem nenhuma culpa. 

Continuo não contando as peças antes de começar. Mas tem uma coisa ótima, chamada experiência que funciona assim: de relance, eu consigo ver o punhado e já ter uma ideia do esforço que vai demandar. 

O trabalho de montagem ainda não acabou e espero que algumas peças ainda sejam adicionadas. Cada nova amizade, novos clientes e trabalhos, cada nova forma de pensar que eu adiciono à minha vida, tornam mais rico e mais bonito esse quebra-cabeça que eu escolhi montar. 

E você? Qual a sua estratégia para montar todas as peças que compõem o seu próprio jogo?



*Nayere Ruas. Natural de Belo Horizonte, radicada em Piracicaba desde 2011. Terapeuta ocupacional que aprendeu a ver ternuras no ser humano. Life coach pela Sociedade Latino Americana de Coaching e Consultora de Imagem pelo Colour me Beautiful Portugal, atualmente desenvolve trabalhos individuais de coaching de carreira e marketing pessoal com foco em mulheres. Ministra treinamentos nas áreas de comportamento, desenvolvimento humano e marketing corporativo. Acredita no poder de transformação que cada pessoa pode alcançar e sempre se surpreende, positivamente, com as barreiras internas quebradas pelos clientes ao longo do processo de coaching.