Depressão pós-parto



Dr. Lucas Vaz de Lima Mattos* 



Problemas de saúde mental associados ao puerpério têm sido identificados há muito tempo. O médico francês Victor Louis Marcé, em 1856, já sugeria que mudanças fisiológicas associadas ao puerpério poderiam influenciar o humor materno.

Na gravidez, ocorrem muitas mudanças nos níveis hormonais (como com o estradiol, a progesterona, o cortisol, a ocitocina, entre outros) para adaptar o organismo da mulher às demandas especiais da gestação, mas isso ocorre gradativamente ao longo de meses. O problema é que, após o parto, existe uma tendência do corpo se readaptar em questão de dias, e nesse momento as mudanças hormonais são muito bruscas, e existe uma ligação estreita entre o sistema endócrino e a atividade cerebral, o que provavelmente deixa a mulher mais exposta a diversos tipos de transtornos mentais.

Além das alterações biológicas, a transição para a maternidade é marcada por outras mudanças radicais, tanto psicológicas como sociais. Existe a necessidade de reorganização social e adaptação a um novo papel, a mulher tem um súbito aumento de responsabilidade por se tornar referência de uma pessoa indefesa, sofre privação de sono e isolamento social. Além disso, é preciso reestruturação da sexualidade, da imagem corporal e da identidade feminina. Um belo desafio, não é?

Para algumas mulheres é uma passagem tranquila, inclusive com uma sensação de fortalecimento de autoestima e de um ganho de sentido existencial, mas para outras pode ser um período marcado por problemas que podem deixar marcas por toda uma vida.

E o principal obstáculo nesse caso é a dificuldade para se falar dos problemas e sentimentos negativos enfrentados. Afinal, uma mãe deveria ser inundada por sentimentos de felicidade em um momento tão especial. Porém, existem muitas expectativas que se aproximam muito mais de uma fantasia de um amor materno incondicional do que da realidade da complexidade de qualquer relacionamento humano.

E a situação de uma mãe que enfrenta dificuldades nesse período pode se tornar muito complicada, pois a frustração de não estar conseguindo cuidar bem do bebê, ou pelo menos não da maneira esperada, pode ser um fardo muito pesado. O sentimento de culpa se torna preponderante, tanto por não se achar competente para cuidar do bebê como também de não sentir tanta alegria e carinho como se esperava, se sentir triste ou indiferente ou até se surpreender com afetos negativos, como raiva e repulsa. A vergonha toma conta e dificulta o pedido de ajuda. Muitas vezes existe pouco suporte familiar, a família está distante e o marido também pode apresentar dificuldades emocionais e estar mal preparado para lidar com a situação. E um pedido de ajuda pode fazer toda a diferença.

Então quais seriam as características de uma depressão puerperal, que a diferenciariam de adaptações coerentes com toas essas mudanças ocorridas nesse período?

Uma primeira diferenciação seria com a chamada disforia puerperal, também conhecida como maternity blues, ou mais recentemente baby blues, que provavelmente seria uma reação natural de adaptação, na qual a mulher ficaria com uma maior sensibilidade emocional, com crise de choro mais frequentes e maior irritabilidade. Os sintomas apareceriam logo após o parto, e tenderiam a se aliviar após 15 dias do nascimento, e não interferem nos cuidados com o bebê.

Já a depressão puerperal tende a se apresentar mais tarde, a partir do final do primeiro mês do pós-parto, mas também ao longo dos primeiros 6 meses desse período. Os sintomas costumam ser mais intensos e durar por muito mais tempo, chegando até a se cronificar ao longo da vida, e podem afetar significativamente a relação com o filho. E essa perda da qualidade da relação mãe-bebê é um fator que justifica uma atenção redobrada para essa condição, com uma intervenção o mais breve possível, pois é um período de desenvolvimento importantíssimo, e a perda de qualidade dessa relação pode deixar a criança com predisposição para o desenvolvimento de diversos problemas psicológicos, e mesmo de transtornos psiquiátricos, ao logo de sua vida.

Como colocamos, no caso da depressão puerperal os sintomas são mais intensos, mais duradouros, e tendem a afetar a vida da mulher de uma maneira mais global. Alterações no padrão de sono e no apetite (tanto um aumento como uma redução), na capacidade de concentração e de memória, uma tristeza profunda que permanece a maior parte do tempo e sentimentos de culpa intensos e recorrentes são algumas das características principais. Abaixo colocamos uma escala de avaliação, a de Edimburgo, que ajuda a detectar casos suspeitos de depressão pós-parto.

O importante é que o tratamento possível, e tem uma taxa de sucesso elevada quando aplicado desde o rápido reconhecimento do quadro. Geralmente a melhor combinação é a do tratamento psicoterápico associado ao tratamento medicamentoso com antidepressivos, que apresentam uma segurança razoável, tanto para a mãe como para o bebê, mesmo que se decida pela continuidade da amamentação. Por isso é tão importante que tanto a família como a gestante estejam conscientes dessa condição, e preparados para agir sem preconceitos, buscando apoio profissional se necessário.


Orientações para cotação

As respostas são cotadas de 0, 1, 2 e 3, de acordo com a gravidade crescente dos sintomas.
Cada item é somado aos restantes para obter a pontuação total.
Uma pontuação de 12 ou mais indica a probabilidade de depressão, mas não a sua gravidade.
A EPDS foi desenhada para complementar, não para substituir, a avaliação clínica.

* Lucas Vaz de Lima Mattos (CRM 104887) é médico psiquiatra