Bate-papo com Marcos Piangers, autor do “O Papai é Pop”



Em abril, fomos a Limeira assistir a uma palestra do Marcos Piangers. Foi uma palestra maravilhosa, cheia de conteúdo e – como não poderia deixar de ser – cheia de emoção!

Impossível resumir em poucas palavras tudo o que o Piangers transmite em sua palestra, o quanto consegue nos emocionar e nos faz olhar a vida e, sobretudo, nossa família de uma forma diferente!

A palestra fala sobre a importância de os homens serem mais participativos na família, mas vai muito além disso... Sendo motivação para pais, mães e até mesmo para aqueles que ainda estão pensando em ter filhos!

Para quem nunca foi a uma palestra do Piangers, só podemos dizer: vão!

Para quem ainda não conhece, Marcos Piangers é o autor do “O papai é pop”, livro sobre paternidade que é referência no Brasil, e que foi traduzido para o inglês, espanhol, catalão e português de Portugal. Tem 3 milhões de fãs no Facebook  e meio milhão no Instagram  .

Para quem já o conhece, dispensa maiores comentários, né?

E, na impossibilidade de trazer aqui tudo de valioso que ele diz em suas palestras, fizemos uma rápida entrevista com ele! Confira:

- O que você acredita ter te motivado a se tornar um pai mais presente e, sobretudo, compartilhar sua história com o mundo?

Piangers: Acho que, em primeiro lugar, a possibilidade de ter filhos, o que para mim era algo deslumbrante. Como eu não tive pai, poder formar uma família era uma espécie de cura, de realização...

Então, quando minhas filhas nasceram, até por um ímpeto jornalístico, eu fui adotando todas as histórias, as frases que elas falavam... E isso foi muito importante para que eu tivesse uma memória... E essas lembranças foram se tornando textos e, mais tarde, se tornaram livro.

Evidentemente que, no início, eu tinha muita insegurança de me abrir, afinal, eu estava falando das questões mais íntimas e valiosas para mim! Nos primeiros textos, eu estava muito inseguro sobre qual seria a reação das pessoas.

Mas, com o tempo, eu fui percebendo que, quanto mais aberto emocionalmente, mais sincero eu era naquilo que eu escrevia, mais as pessoas se identificavam, comentavam, tinham sua própria vida transformada... E isso me incentiva todo dia para continuar escrevendo!



- Ainda temos enraizada em nossa cultura aquela ideia de que o pai precisa basicamente “sustentar a família com o seu trabalho” e que isso basta. Como podemos fazer nossa parte, dentro da nossa família, e ir aos poucos alterando este conceito ultrapassado?

Piangers: O primeiro grande passo é exatamente este, falar sobre o assunto...

Quando a gente fala sobre essas questões, uma parcela da população se sente um pouco incomodada, “cutucada” (pela transformação). É claro que um homem machista e um homem que é um “provedor de casa” – se sente bem e seguro dessa forma, confortável nessa posição de provedor – , quando escuta a discussão sobre uma nova sociedade, uma nova configuração familiar em que a mulher trabalha e o homem ajuda em casa, e ambos dividem as questões da criação dos filhos, ele vai se sentir incomodado.

Mas acredito que, para o bem deste mesmo homem, essa discussão acaba transformando a configuração familiar para melhor... Visto que, se o homem participa, a criança cresce com mais referencial e mais segurança emocional; a esposa/mãe tem mais condição e liberdade para ir atrás da sua realização profissional; e o próprio homem /pai tem a possibilidade de se libertar dessa “prisão masculina” e experimentar uma vida mais encantada, sensível perto dos seus filhos.

Quanto mais a gente falar sobre isso, mais a gente vai estar incentivando homens a participarem dessa transformação e, provavelmente, estaremos aproximando mais homens e mulheres de uma realidade/configuração mais feliz!

- Em suas palestras, vemos um número maior de mulheres quando comparado ao número de homens presentes. Você acredita que isso seja ainda sinal de uma certa resistência por parte dos homens/pais em se envolverem mais efetivamente na criação dos seus filhos? Quais são suas expectativas neste sentido?

Piangers: Algumas palestras, sim, têm mais mulheres; em outras palestras, vemos mais homens. Há, inclusive, palestras exclusivas para homens, visando justamente uma discussão em local seguro sobre a masculinidade, sobre o novo comportamento masculino.

Nas minhas redes sociais, cerca de 60% dos seguidores são mulheres, e 40% são homens. Mas vejo que cada vez mais os homens participam, começam seus próprios blogs... Então tenho esperança que a gente viva numa sociedade cada vez mais igual!

É importante dizer que alguns países do mundo já estão chegando em números muito interessantes: a Finlândia é o primeiro país do mundo em que os homens passam mais tempo com seus filhos do que as mulheres.

Tem ainda países como o Canadá em que homens brincando no parquinho com seus filhos é algo muito comum. E, ainda, alguns como a Suécia em que muitas mulheres voltam a trabalhar depois da licença parental antes dos homens, e os homens ficam em casa cuidando dos bebês... Isso por opção, pela liberdade de poderem escolher: o homem quer ficar com os filhos, a mulher quer trabalhar. Isso não é olhado com estranheza, isso é naturalizado numa sociedade que já entendeu que é importante a participação do homem na criação do filho e que é importante a divisão de tarefas.

- Como podemos criar meninos e meninas mais conscientes sobre o conceito de família e de uma paternidade mais participativa?

Piangers: Para muita gente, esta é uma conversa muito moderninha... Para essas pessoas, a possibilidade de ter uma mulher trabalhando e um homem ajudando em casa é uma desconstrução da família tradicional.

Mas, eu acredito que a família é afeto, é amor e é importante... Quanto mais a gente tiver de estrutura para educação, criação, formação e preparação das crianças para o futuro, mais a gente terá uma sociedade saudável!

Então, o que a gente vê hoje é que muitos pais terceirizam educação. Muitos pais com dinheiro não estão dentro de casa dando educação e sendo mentores dos filhos... Terceirizam a educação para babás, para o Netflix, para Youtube, tecnologias, para a escola...

E muitos pais pobres também estão sem tempo e condição de criar seus filhos...

Então, se nem a parcela com mais dinheiro, nem parcela com menos dinheiro cria seus filhos, temos uma geração de órfãos, uma geração que vai crescer sem referencial, sem educação, sem limites, sem preparo, sem organização emocional, sem inteligência emocional para lidar com todas as questões da sociedade.. E, consequentemente, vamos ter uma sociedade doente.

É muito importante que a gente acorde para esta discussão e decida mudar o nosso comportamento. Não pensar nos outros, mas pensar em você, na sua família: como você pode ser um pai ou mãe melhor hoje? Isso já vai ser um superpasso para um futuro melhor!

- Você comenta em sua palestra que os pais são vistos como heróis pelos filhos... Que mais do que brinquedos caros e outros produtos, o que a criança mais deseja é a presença dos pais. Como isso fica na época da adolescência, fase em que eles costumam “se afastar” um pouco dos pais, prezar mais por liberdade, sair com os amigos etc.? Como podemos continuar sendo (ou nos tornarmos) pais participativos/presentes na vida dos nossos filhos nesta fase difícil que é a adolescência?

Piangers: Penso que seja muito difícil para os pais que sempre foram autoritários e distantes, muitos grosseiros e insensíveis, que não tiveram empatia com os filhos quando eles eram bebês, crianças ou pré-adolescentes, restabelecerem a confiança e um laço de conversa e afeto com o filho na fase da adolescência.

Então, esse é um trabalho de longo prazo, que deve ser feito desde a primeira infância até as etapas seguintes... Com muita conversa, muita aproximação, discussão, respeito pelos sentimentos do filho, empatia pelo o que o filho acha e sente. Com muito esforço também! Porque é mais fácil bater e dar castigo do que explicar todas as questões para que seu filho seja um ser humano completo!

Daí, sim, na adolescência você consegue ter um laço, um canal de conversa com seu filho... E ele provavelmente não vai se afastar tanto. E ele já vai ter, provavelmente, formado seus valores... E, provavelmente, será luz para outros adolescentes e não “Maria vai com as outras”. É importante que ele tenha senso critico e possa influenciar os amigos positivamente!

'Oras bolas', se os adolescentes são sempre influenciados por alguém... Se a gente sempre diz que “os amigos do filho fazem com que ele queira comprar Ipad, comprar tênis novo, sair na balada, beber todas, usar droga”... Por que os amigos do seu filho não podem ser também adolescentes que “gostam de ler, ver filmes, conversar, fazer exercícios, se alimentar de forma saudável”?!

Se a gente está falando de influência, a gente pode, sim, criar adolescentes para serem luz, influências positivas na vida de outros adolescentes!

- No caso de pais separados, como o homem pode exercer seu real papel da melhor maneira?

Piangers: Primeiro, mantendo a harmonia, tranquilidade, conversa, aproximação e respeito pela ex-mulher.

Segundo, optando pela guarda compartilhada. Desde 2014, a lei indica que os juízes optem preferencialmente pela guarda compartilhada em caso de separação. Ou seja, não parece ser a opção mais saudável o filho ficar só com a mãe ou só com o pai.

Sempre que possível, é muito mais saudável que o filho tenha guarda compartilhada... Para que, dessa forma, ele possa ter referências femininas e masculinas, e possa ter uma construção saudável emocional...

É essencial ainda que os pais se respeitem e não usem a criança como uma arma para agredir o outro! Mesmo separados, pai e mãe podem continuar sendo uma família, porque pai e mãe são para sempre!

- Em relação à tecnologia – hoje tão presente em nossa vida e, consequentemente, na vida dos nossos filhos –, como utilizá-la com equilíbrio? É possível conscientizarmos nossos filhos sobre um uso realmente benéfico de computadores, tablets, celulares etc.? É possível utilizarmos a tecnologia a favor do nosso relacionamento em família?

Piangers: Acho que esse assunto deveria estar sendo estudado nas escolas, nas conversas, nas reuniões escolares, para os pais poderem ter maior noção do mal que a tecnologia causa e do bem que a tecnologia pode oferecer!

Existem tecnologias fantásticas... No caso da minha filha de 5 anos, por exemplo, a gente só joga Duolingo para aprender inglês; brinca com aplicativos educativos...E óbvio que tem limite de tempo para isso!

De tanto conversar e explicar que os outros aplicativos, jogos e desenhos animados viciam as crianças, que fazem mais mal do que bem, minhas próprias meninas já começaram a perceber que é melhor optar por um caminho mais saudável!

Eu, como trabalho com tecnologia, tenho muita informação sobre isso, sobre como são feitos os aplicativos... E, para mim, é muito claro que essa é uma espécie de cegueira que os pais têm de não conhecerem os “bastidores da tecnologia”... Deve haver realmente uma preocupação muito grande com crianças que, com menos de 2 anos, são expostas a telas – ainda que a Sociedade Brasileira de Pediatria não recomende!